Conhecer os cães

 

Na imagem acima sumariamente descreve-se a anatomia do cão, no texto que se segue vamos entrar por outros caminhos como a Fisiologia e a Etologia, numa forma simples, de modo a que tenhamos uma maior noção, do nosso amigo de 4 patas.

 

FISIOLOGIA

Enquanto a Anatomia estuda como é um corpo e quais são os diversos elementos que o compõem, a Fisiologia estuda as condições de funcionamento dos órgãos.

O comportamento do cão depende das respostas que o cérebro elabora em função dos estímulos externos ou internos que sobre ele atuam.

Os órgãos dos sentidos captam esta informação (estímulos), enquanto o sistema nervoso central se encarrega de a processar para dar lugar a condutas que não fazem mais do que exteriorizar o impacto nele causado.

Visão

O globo ocular tem a função de captar os estímulos luminosos e de os transmitir ao cérebro através do nervo ótico.

Ao contrário do olho humano, que só tem duas pálpebras, o do cão está protegido por três: a superior, a inferior e a terceira, que se situa no ângulo interior do olho, chamada membrana nictitante, uma dobra da conjuntiva suportada por uma lâmina delgada de cartilagem.

As glândulas lacrimais têm igualmente a função de proteger o olho através da secreção de lágrimas, que mantêm sempre a córnea húmida.

O sentido da visão no cão, como em muitos outros animais, está nitidamente menos desenvolvido do que na espécie humana. Os cães não têm, por exemplo, a capacidade de distinguir as cores. A sua visão é a preto e branco pelo que, provavelmente, as sombras são as protagonistas do seu mundo visual.

No entanto, os cães são perfeitamente capazes de ver na escuridão, já que a sua pupila tem a possibilidade de se dilatar consideravelmente, permitindo uma maior entrada de luz através do cristalino e conferindo-lhes, portanto, uma grande capacidade de visão noturna, mesmo nas noites mais cerradas.

Os cães são capazes de distinguir pequenas presas a mais de trezentos metros, quando estas se encontram em movimento. Na verdade, o movimento é o estímulo visual mais poderoso. Sabem-no muito bem os predadores, que ficam alerta perante as evoluções das suas potenciais presas, do mesmo modo que a natureza confere a estas um mecanismo instintivo de proteção absolutamente oposto: a imobilidade.

Audição

O ouvido do cão é extremamente sensível, em comparação com o humano. De facto, o cão ouve noutro comprimento de onda percebendo inclusive os ultrassons. O som dos apitos de Galton, utilizados pelos caçadores, é inaudível para o ouvido humano mas perfeitamente percetível para cão.

A mobilidade do pavilhão auricular do cão serve também para uma melhor receção das ondas sonoras.

O cachorro nasce surdo e assim permanece até aos 10 ou 12 dias de idade. Quando começa a ouvir, não sabe localizar a proveniência dos sons.

O cão pode ouvir melhor e a maior distância, especialmente quando se trata de sons agudos.

Os sons fortes estimulam melhor os cães do que os sons fracos. O estalido do chicote do figurante, por exemplo, é um potente estímulo para que o cão ative o seu comportamento de defesa.

O cão pode demonstrar medo perante alguns sons. Isto ocorre particularmente com os disparos. O medo do tiro, embora possa estar relacionado com uma alteração auditiva é a expressão, na maioria dos casos, de insuficiente têmpera, de nervosismo e de falta de controlo.

Olfato

O sentido do olfato é o mais desenvolvido no cão e contribui para compensar a visão a preto e branco, permitindo-lhe que reconheça os objetos.

O cão identificará os mamilos da mãe através do odor que libertam. Quando se oferece uma guloseima a um cão, este cheira primeiro para a identificar e só depois a traga sem a saborear.

O cão mais melindroso desdenhará um alimento que não conhece. No entanto, se este for misturado com aquele que é seu preferido, comê-lo-à sem reservas.

O nariz do cão está dotado de numerosas células recetoras, banhadas por um líquido aquoso que dissolve as substâncias odoriferas.

O cão vive num mundo de odores, inimaginável para os seres humanos.

À semelhança do próprio olfato, também a memória olfativa do cão está muito desenvolvida, pois cataloga e retém os odores que vai conhecendo.

Que cheira um cão quando segue a pista de uma pessoa?

Provavelmente, a soma de várias emanações: o solo revolvido pelas pegadas, onde o odor permanece durante horas, e um cone odorífero de partículas que flutuam no ar e que é suscetível de desaparecer rapidamente em consequência dos agentes atmosféricos, especialmente do vento.

Pode decerto afirmar-se que o cão, quando deteta um rastro, avança seguindo um cone de emanação com o vértice na direção da presa perseguida, tanto mais estreito quanto menor é a distância que o separa dela.

Gosto

O gosto, como o olfato, é um sentido ativado por recetores químicos.

As células que captam os sabores encontram-se nas papilas gustativas, localizadas na parte posterior da língua e no palato mole.

O cão, como o homem, distingue presumivelmente cinco sabores: doce, salgado, ácido, acre e amargo. Embora seja evidente que a capacidade gustativa do cão é muito inferior à humana, razão pela qual, muito provavelmente, aquilo que para o ser humano são sabores, para o cão sejam odores.

Tacto

O cão obtém igualmente informação do meio circundante através do tacto, embora talvez seja para ele o sentido com menor importância. Nos primeiros momentos de vida, por exemplo, é o tacto que orienta o recém-nascido para os mamilos da mãe.

As sensações térmicas nos cachorros conduzem à não aceitação da tetina de um biberão mesmo que existam apenas cinco graus de diferença em relação à temperatura adequada.

Se o cão sente calor, procura regular a temperatura corporal através do arquejo, evaporando água pelos pulmões, garganta, boca e língua.

O cão sente através das patas as mesmas vibrações que o ser humano experimenta.

Assim, os cães absolutamente surdos percebem a aproximação das pessoas.

De qualquer modo, é preciso não esquecer que as patas do cão servem, acima de tudo, para que este se desloque ou escave, pelo que não é necessário que apresentem demasiada sensibilidade.

Quem tenha assistido a um combate de cães, talvez pense que eles não sentem dor. No entanto, há pouca diferença entre o seu limiar álgico e o do homem. Neste caso, a adrenalina segregada na síndrome geral de adaptação mantém alerta os contendentes e insensibiliza-os temporariamente. Quando é reposta a normalidade, os animais experimentam a dor de forma semelhante às pessoas.

Em contrapartida, os cães têm uma extraordinária resistência ao frio. E frequente ver fotografias de cães de trenó deitados na neve, no meio de um vendaval. A sua pelagem e a sua camada de gordura permitem a adaptação a temperaturas extremas.

ETOLOGIA

A Etologia é a ciência que estuda o comportamento animal, a liberdade e as soluções que estes dão, para os problemas de sobrevivência e reprodução.

Quando ouvimos um cão a ladrar e desejamos saber porquê? Porque o cão ladra? Seguramente, acharemos várias soluções corretas para esta pergunta. 

  1. Ladra, porque descende de outros que já podiam fazer o mesmo.
  2. Ladra, porque ele aprendeu com os seus ascendentes.
  3. Ladra, porque ele tem um dispositivo vocal que o permite fazer.
  4. Ladra, porque ele precisa disso para sobreviver ou reproduzir.

As quatro respostas são tidas como corretas, mas, as duas últimas são as mais satisfatórias uma vez que as primeiras são óbvias. Nós pensamos, então, que a coisa mais importante na vida do cão é sobreviver e reproduzir.

A etologia analisa o comportamento animal e decompõem-no em elementos simples, estudando cada um deles. Deste modo, a etologia elabora o etograma (ou inventário de comportamentos) de cada espécie.

Para explicar cada comportamento elementar do etograma é preciso responder às chamadas «quatro perguntas de Tinbergen»:

  1. O que desencadeia e termina um determinado comportamento?
  2. Como evolui o comportamento ao longo da vida do indivíduo?
  3. Em que medida tal comportamento aumenta a eficácia biológica do indivíduo?
  4. De que forma evoluiu o referido comportamento?

A primeira pergunta refere-se à motivação do comportamento e abrange o estudo dos estímulos internos (concentração de hormonas, por exemplo) e externos (olfactivos, visuais, sonoros, etc.) que o desencadeiam.

No treino é imprescindível identificar os estímulos que excitam o cão e dosear a sua apresentação, assim como usar os reforços adequados em cada caso, para fomentar a expectativa de recompensa que levará o animal a desenvolver um gosto crescente pelo trabalho.

A segunda pergunta está relacionada com a ontogenia do comportamento e diz respeito à descrição das mudanças que este sofre ao longo da vida do indivíduo e à descoberta das causas que originam tais mudanças.

Os comportamentos que se ensinam durante o treino sofrem um desgaste específico na acção. Depois de numerosas repetições, corre-se o risco de que surja o desânimo e a monotonia.

A terceira pergunta aponta para o valor adaptativo do comportamento e vai no sentido de explicar de que forma um comportamento aumenta a eficácia biológica do indivíduo que o manifesta (a eficácia biológica é a expressão do número de descendentes produzidos por um animal que chegam à idade fértil).

A quarta pergunta corresponde à evolução do comportamento para lá do indivíduo, ou seja, a forma como um determinado padrão comportamental evolui ao longo do desenvolvimento genético de uma espécie.

Depois do atrás referido coloca-se a pergunta: Um cão é capaz de decidir? Claro que sim! Entretanto não o faz compilando a informação tal como nós, as decisões dele são mais básicas e resultam da experiência adquirida.

 

Como é que eles decidem? Eles utilizam uma equação muito simples, os custos de relação / benefícios. Realmente todos os animais tomam as decisões deles baseados nesta equação. Nós, os seres humanos, a sofisticamos com um monte de informação antes de agir, eles não.